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Sabe aquela piadinha que diz que melhor que príncipe encantado é o lobo mau, que te vê melhor, te ouve melhor e ainda te come?
Pois então. Outro dia um amigo perguntou:

– E se você tiver que escolher entre um homem que te ouve, um que te enxerga e um que te come, qual você prefere?

Na ocasião não soube exatamente o que responder. Ignorando o fato que de o termo “comer” não me apetece, pois aceitei que ele se referia a uma relação sexual saudável e consensual (ou uma boa trepada, se você preferir nesses termos), pensei comigo: um homem de verdade é multifacetado, não quero ao meu lado um cara que seja apenas uma coisa. Lembro que a primeira eliminação foi o cara que só te come. Disse ao meu amigo que se eu quiser um objeto sexual eu compro um. E ele me questionou, disse que transar com um consolo não é o mesmo que um homem de carne e osso. Não pude discordar, mas vamos admitir que um cara que “só te come” não é o tipo de cara que se dedica na hora do sexo para o prazer mútuo. O cara que só te come é o cara que está lá pra gozar e tchau. Lembro que dizer ao meu amigo, depois de alguma reflexão, que eu já pago pra que alguém me ouça, me referindo à minha psicóloga, assim concluí que prefiro então o cara que me enxerga.

Uma pessoa que realmente te enxerga é capaz de perceber certas nuances da sua personalidade, descobrindo (sem que você precise desenhar) do que você gosta ou deixa de gostar. É preciso olhar para além do que se vê na superfície. E aí o resto é consequência. De qualquer forma, o conjunto da obra é que torna a coisa interessante.

Não à toa, o tema já foi retratado no cinema, recentemente em A Garota da Capa Vermelha (2011) e anteriormente em A Companhia dos Lobos (1984), fazendo essa analogia à sexualidade adolescente. Pra ser honesta eu não vi nenhum dos dois filmes, por isso não vou fazer nenhum juízo de valor, muito menos uma análise do foco tomado por cada um dos filmes.

O conto original, porém, não tem sequer o intuito de ser um conto de fadas e acho que remete muito mais à violência sexual do que à descoberta da sexualidade, ao menos pra mim. Segundo, era para ensinar às filhas a não responderem a chamados de estranhos educando pelo medo. A mensagem pra mim é muito simples: não fale com estranhos, não dê informações.  Muito útil ainda nos dias de hoje.

A psicanalista Maria Rita Kehl o apresenta como contado pelos antigos no artigo “A Psicanálise e o Domínio da Paixão”:

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe aonde ia:
– Para a casa da vovó – ela respondeu.
– Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
– O das agulhas.
Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, a espera.
Pam, pam!.
– Entre, querida.
– Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e leite.
– Sirva-se também de alguma coisa. Há carne e vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse:
– Menina perdida! Comer a carne e beber o sangue da sua avó!
Depois o lobo disse:
– Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
– Onde ponho o avental?
– Jogue no fogo. Você não vai mais precisar dele.
Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E cada vez, o lobo respondia:
– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:
– Ah, vovó! Como você é peluda!
– É para me manter mais aquecida, querida.
– Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
– É para carregar melhor a lenha, querida!
(…) Até que ela perguntou:
– Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
– É para comer melhor você, querida!
E ele a devorou.

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