Eu já tive vários blogs, o primeiro deles em 2002/2003, no qual eu relatava o meu cotidiano. Tinha vários leitores e muito raramente um post ficava sem comentários. Com a moda dos Fotologs, os blogs “escritos” ficaram meio abandonados e, como eu não possuía uma câmera digital, que era privilegio de poucos há dez anos, meu fotolog vivia morto e cada vez menos postagens e comentários eram postados no blog, assim como nos blogs que eu acompanhava na época, todos de cunho pessoal.

Eu cheguei a me expor muito na internet durante aquele período. Lembro que um dia cheguei bêbada em casa e fui escrever no blog. Admito que foi um post muito bem escrito e muito inspirado, mas nele eu contava sobre uma ficada que acabara de acontecer e revelava o fato de que sou bissexual. Lembrando que não era um blog anônimo. Além de leitores blogueiros de outros estados e mentes abertas, várias das pessoas que me acompanhavam eram meus amigos da escola, da ex-escola, “da rua”, minha irmã, algumas primas e primos… A minha família é um tanto conservadora e crítica e eu, bem, morava em uma cidade do interior, daquelas onde todo mundo acaba se conhecendo, e muito conservadora.

Depois do post, ninguém nunca mencionou o fato, como eu imaginava que aconteceria. Nem meus amigos, nem a minha irmã… Ninguém. Minha bissexualidade não era fato jamais revelado. Alguns poucos amigos sabiam. Da minha cidade, acho que um ou dois. De uma cidade vizinha, onde eu tinha mais amigos open minded, inclusive umas meninas bissexuais/bi-curious, quase todos sabiam. Mas entre aqueles amigos que eu preservava desde os 11, 12anos, eu não havia contado pra ninguém. Sabe como é, preconceito e tal. Ficava pensando se as meninas não iriam ter aquela ideia errada de que eu estaria pensando nelas sexualmente.

Tentei conversar sobre isso com uma das minhas mais antigas amigas. Éramos amigas desde os 10 anos, afinal, mas ela se mostrou cética. Eu perguntei se ela ficou chateada pelo que escrevi e ela fez que não sabia do que eu tava falando. Aí eu entendi porque ninguém havia falado nada. Bissexualidade, homossexualidade ou whatever era assunto proibido. Ignore.

Daí passei a me autocensurar. Nunca mais falei de relacionamentos, ficadas e afins no blog. Disso pra parar de mostrar as minhas opiniões foi um passo. Pensei que as minhas opiniões de nada valiam, já que as pessoas não queriam saber, não queriam falar de certos assuntos. Eu me assumi bissexual, mas eu não tinha esse direito. E quando percebi o meu blog tinha virado local de auto depreciação. Resolvi mudar do weblogger pro blogspot, “começando do zero”, deixando pra trás a bissexual assumida e as opiniões controversas. O meu começar do zero era, então, fazer um blog igual ao anterior só que pior. Nesse, até o título era depreciativo. Nos posts eu escrevia sobre o quanto eu era loser, sobre o quanto eu odiava a cidade onde vivia, a mentalidade das pessoas ao meu redor, a minha família e a mim mesma. Quando uma coisa boa acontecia comigo eu contava em fragmentos fingindo que não me afetava. Quando uma coisa ruim me acontecia eu, mais uma vez, contava fragmentos, minimizando o quanto era ruim, fazendo drama sob o aspecto errado e querendo dizer que nada daquilo me atingia. E quando ficava claro que me atingia, eu justificava com mais auto depreciação. Nessa época eu tinha poucos leitores. Tipo, uma meia dúzia de amigos. Um ou outro – os menos próximos – se mostravam solidários com os meus problemas, mas isso só fazia eu me sentir pior. Eu não queria que as pessoas me vissem como uma coitada, mas não queria que percebessem que eu tentava abrir a minha mente para coisas que as pessoas da cidade pequena optavam por ignorar. Aí eu me escondia num mundinho tão inho, que me tornei uma pessoa aparentemente até mais vazia do que aquelas das quais eu tentava fugir.

De tempos em tempos eu fazia outro blog. Dizia pra mim mesma que o próximo seria diferente, que deixaria de ser tão negativa, mas quando eu via, tinha virado a mesma coisa que o anterior, e aí eu fazia outro. Desisti.

Já faz muito tempo que ando acariciando a ideia de voltar a escrever. Já tentei ter blog anônimo antes e isso faz eu me sentir uma farsante, mas não quero me sentir exposta de novo e com o Facebook e essas coisas, hoje tenho muito mais familiares preconceituosos online. Aqui pretendo falar sobre a minha vida pessoal, muitas coisas muito pessoais. Coisas que costumo guardar pra mim, mas sinto que preciso dividir, ainda que com estranhos. Estou tentando vários tipos de terapia, não apenas porque tenho depressão, fobia social e agorafobia, mas também uma jornada de autoconhecimento e escrever é uma forma de terapia. Tenho passado muito tempo sozinha com os meus pensamentos – e não é que não goste disso -, mas chegou o momento de eu voltar à realidade e dada a minha dificuldade de me relacionar com o mundo exterior, acho que internet é um bom começo.

Anônimo, sim. Sei que vou ser julgada aqui, e não preciso me sentir ainda mais desconfortável na presença das pessoas da minha vida “real” dando a elas mais motivos pra me julgarem. Além disso, o que pretendo escrever pode expor outras pessoas. Já expus minha família de uma maneira não muito legal em um antigo blog e eu não tenho esse direito.

PS1: Sei que o post de apresentação foi longo. Pretendo ser mais objetiva daqui pra frente.

PS2: Não pretendo fazer desse blog exclusivamente um querido diário. Me reservo ao direito de escrever sobre absolutamente qualquer assunto que eu quiser.

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